No Ato 3 de Limiar da Trilogia, enquanto ato final ou ato de misericórdia. Permita-se-nos que a palavra misericórdia seja usada neste contexto curatorial, num sentido irónico e provocador. Quando questionamos ou pretendemos questionar que existe arte bruta e existe arte contemporânea realizada por artistas que sofrem da doença mental, esta palavra solta-se rapidamente.
Não pretendemos carregar mais essa diferença, aquela que se esconde numa constante obsessão em dividir ou não arte bruta da arte contemporânea. No espaço criativo do Manicómio, convive-se constantemente, questiona-se continuamente que essa diferença possa não existir.
A trilogia que agora termina – com a apresentação do trabalho de Joana Ramalho, Filipe Cerqueira e Zé dos Castelos – mostra a qualidade estéticas destes artistas, mas também o lado profissional de produção, comunicação e curadoria do coletivo.
A Joana representa os seus pensamentos, medos, alegrias, formas de olhar, de ver, de ouvir; em frases de uma caligrafia poética, numa poesia visual que renasce. São de uma crítica romântica social.
Filipe Cerqueira apresenta 3 vídeo-projeções.
Ao descrever o seu trabalho, a única palavra que surge é “Filipe”.
O mundo do Filipe.
A expressão do Filipe.
A ação do Filipe.
Finalmente, o José, ou Zé dos Castelos.
Não sabemos se de facto vive num castelo (sabendo que na realidade não) ou se crê que essa realidade é real.
Zé é um rei, um príncipe, uma princesa, uma rainha.
Os desenhos do Zé não são meras referências arquitectónicas, mas sim vivências reais, vividas, experimentadas.
Não são castelos, são família, são lar.
Limiar da Trilogia - Ato 3/3
Filipe Cerqueira, Joana Ramalho, Zé dos Castelos
Curadoria de Manicómio
De 25 de julho de 2022 a 16 de setembro de 2022


Sobre os Artistas
Filipe Cerqueira
Nasceu em 1989, em Lisboa. “Olá, sou o Filipe Cerqueira, e sei muito sobre muitas coisas” é uma das formas com que se apresenta. O Filipe vive num mundo de Hanna-Barbera e desenhos animados do Looney Tunes, heróis da década de 1930, autorretratos e, mais recentemente, sátira política a líderes mundiais como Putin ou Trump. Já integrou diversas exposições coletivas, como a ida à Outsider Art Fair de Nova Iorque em 2020, destacando-se ainda a individual em 2016 na Galeria Abysmo em Lisboa. Está em várias coleções privadas. É artista residente na Cercica de Cascais, sendo representado pelo MANICÓMIO desde 2019.
Joana Ramalho
Nasceu em 1990, em Lisboa. Curso de Pintura e Desenho no Ar.Co (2010). Frequência da Licenciatura de Artes Plásticas na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. Pós-Graduação em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2017).
Os seus períodos de internamento foram amparados por livros de poesia, tendo sido esse o ponto de partida para o trabalho que desenvolve hoje. Tem como especialização as áreas de Pintura, Desenho e um especial interesse por caligrafia.
Participou em diversas exposições coletivas, como: Não há amor, só existem provas de amor, Centro Cultural de Belém, Lisboa (2015); 12x12, Galeria Arte Graça, Lisboa (2019); Poster, Arte Pública em Marvila, Lisboa (2020); Feira Internacional de Arte Bruta Outsider Art Fair, Nova Iorque (2020); e Incómodo, Museu Municipal de Faro (2020). Teve a sua primeira exposição individual com Em Suspenso, no 86 Cocktail Bar, em Lisboa (2019). Joana Ramalho é representada pelo MANICÓMIO desde 2019.
Zé dos Castelos
José Domingos nasceu em Torres Vedras, em 1971. Tem o 12º ano, na área de Humanísticas – Desenho. Depois de vários trabalhos ao longo dos últimos 20 anos (desde cuidador a empregado de restaurante), foi durante um internamento hospitalar que recomeçou a desenhar. O impulso mais a sério deu-se com a intervenção de uma amiga, que trabalha numa galeria de arte em Londres, e com o início da colaboração com o Manicómio em novembro de 2019, a convite de Sandro Resende, o seu diretor.
O Zé só desenha castelos. Acredita que há qualquer coisa na sua vida passada que o explica. Por vezes também fi ca frustrado por só querer desenhar castelos, apesar de ter feito outro tipo de trabalhos em pastel e a carvão. Refl etindo, considera que sempre foi rabiscando ao longo da vida, com interesses especialmente por plantas de casas labirínticas; seguindo a noção do calendário, 365 divisões, 52 corredores, 7 pisos e 4 pátios interiores; o seu ideal e paixão por castelos, de viver num deles... a grande nostalgia por não o poder fazer. Antes, tinha um caderno em que desenhava casas e avaliava-as enquanto passeava de carro. Refere que sempre teve este fascínio, nomeadamente pela Baviera e pelo Rei Luís II, que fi cou conhecido pela mesma paixão e por mandar construir imensos castelos.